sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Chão de giz

“Eu desço dessa solidão e espalho coisas sobre o chão de giz”. Você com certeza já escutou essa frase, seja cantada na potente voz do pernambucano Zé Ramalho ou de sua prima, Elba Ramalho. A música foi lançada em 1979 no LP "A Peleja do Diabo com o Dono do Céu". O disco teve outros grandes sucessos como "Frevo Mulher", "Admirável Gado Novo", "Avôhai", "Táxi Lunar", "Bicho de 7 cabeças" e "A Terceira Lâmina", mas um dos maiores sucessos foi mesmo “Chão de Giz”.

José Ramalho Neto é um compositor no estilo “colcha de retalhos”, pois tem influências da cultura nordestina, dos Beatles, da mitologia grega, de histórias em quadrinhos, de Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Golden Boys, Renato e seus blue caps, The Rolling Stones, Pink Floyd, Raul Seixas e, principalmente, Bob Dylan. Talvez essa multiplicidade é que o torne atemporal, o cantor tem fãs de todas as gerações.

Com músicas que, se levadas ao pé da letra, dizem muito e não dizem nada, o costureiro dessa “colcha de retalhos” já compôs em tom autobiográfico, como em “Garoto de Aluguel, que faz referência aos primeiros anos de Zé Ramalho no Rio de Janeiro. "Avohai", também já teve seu mistério desvendado, foi escrita em homenagem a seu avô, que o acolheu quando seu pai, Antônio de Pádua Pordeus Ramalho, um seresteiro, morreu afogado num açude.

Mas e “Chão de Giz”? Na internet existem as mais diversas explicações, umas bem mirabolantes, outras coerentes, algumas convincentes, uma ou outra bem provável, mas a mais interessante, e que parece verdadeira, já que, segundo o autor, foi dada pelo próprio Zé Ramalho, foi a seguinte: O Zé teve, em sua juventude, um caso duradouro com uma mulher casada, bem mais velha, da alta sociedade de João Pessoa, na Paraíba. Ambos se conheceram num Carnaval.

Ele se apaixonou perdidamente por esta mulher, só que ela era casada com uma pessoa influente da sociedade, e nunca iria largar toda aquela vida por um "garoto pé rapado" que ela apenas "usava" para se satisfazer na cama. Assim, o caso foi terminado. Zé ficou arrasado por meses e chegou a mudar de bairro, pois morava próximo a ela. Nesse período de sofrimento, compôs a canção. Conhecendo a história percebe-se a explicação para cada frase da música:

"Eu desço dessa solidão, espalho coisas sobre um chão de giz": Um de seus hábitos, no sofrimento, era espalhar pelo chão todas as coisas que lembravam o caso dos dois. O chão de giz também indica a fugacidade do relacionamento, facilmente apagável "Há meros devaneios tolos a me torturar”: Aqui é claro, devaneios, viagens, a lembrança dela a torturá-lo.

"Fotografias recortadas de jornais de folhas amiúde": Outro hábito seu era recortar e admirar fotos dela que saiam nos jornais, já que ela era da alta sociedade, sempre estava nas colunas sociais.

"Eu vou te jogar num pano de guardar confetes": Pano de guardar confetes são balaios ou sacos típicos das costureiras do nordeste, onde são jogados restos de pano, papel, etc. Aqui, ele diz que vai jogar as fotos dela fora num pano de guardar confetes, para não mais ficar olhando-as.

"Disparo balas de canhão, é inútil pois existe um grão vizir": Ele tenta ficar com ela de todas as formas, mas é inútil pois ela é casada com o tal figurão rico (o Grão Vizir).

“Há tantas violetas velhas sem um colibri": Aqui ele pega pesado com ela. Há tantas violetas velhas (como ela, bela, mas velha) sem um colibri (jovem pássaro que a admire). Aqui ele tenta novamente convencê-la simbolicamente, destacando a sorte dela de poder ter um colibri, e rejeitá-lo.

"Queria usar quem sabe uma camisa de força ou de vênus": Bem, aqui é a clara dualidade do sentimento dele. Ao mesmo tempo em que quer usar uma camisa de força, para manter-se distante dela e não sofrer mais, queria também usar uma camisa de Vênus (camisinha), para transar com ela.

"Mas não vão gozar de nós apenas um cigarro": Novamente ele invoca a fugacidade do amor dela por ele, que o queria apenas para "gozar o tempo de um cigarro". Percebe-se o tempo todo que ele sente por ela profundo amor, enquanto é correspondido apenas com o tesão, com o gozo que dura apenas o tempo de se fumar um cigarro (também representativo como o sexo, pois é hábito se fumar um cigarro após o mesmo).

"Nem vou lhe beijar gastando assim o meu batom": Para quê beijá-la, "gastando o seu batom" (o seu amor), se ela quer apenas o sexo?

"Agora pego um caminhão, na lona vou a nocaute outra vez": Novamente ele resolve ir embora, após constatar que é inútil tentar. Mas, apaixonado como está, vai novamente "à lona" - expressão que significa ir a nocaute no boxe, mas que também significa a lona do caminhão com o qual ele foi embora - lembrem-se que ele teve que se mudar de sua residência para "fugir" desse amor doentio.

"Pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar": Auto-explicativo, né?! Esse amor que, para sempre, irá acorrentá-lo, amor inesquecível. O amor era sua fraqueza, assim como o calcanhar para Aquiles.

"Meus vinte anos de boy, "that's over, baby", Freud explica": Ele era bem mais novo que ela. Ele era um boy, ela era uma dama da sociedade. Freud explica um amor desses (complexo de Édipo, talvez?). Em todo caso, "that´s over, baby", ou seja, está tudo acabado.

"Não vou me sujar fumando apenas um cigarro": Ele não vai se sujar transando apenas mais uma vez com ela, sabendo que nunca passará disso "Quanto ao pano dos confetes já passou meu carnaval" Lembrem-se, eles se conheceram num carnaval.

Voltando a falar das fotos dela, que ele iria jogar num pano de guardar confetes, ele consolida o fim, dizendo que agora já passou seu carnaval, ou seja, terminou, passou o momento. "E isso explica porque o sexo é assunto popular" Aqui ele faz um arremate do que parece ter sido apenas o que restou do amor dele por ela (ou dela por ele): sexo. Por isso o sexo é tão popular, pois só ele é valorizado - uma constatação amarga para ele, nesse caso.

Há quem veja também aqui uma referência do sexo a ela através do termo "popular", que se referiria ao jornal (populares), e ela sempre estava nos jornais, ele sempre a via neles. "No mais estou indo embora" Bem, aqui é o fechamento. Após sofrer tanto e depois desabafar, dizendo tudo que pensa com relação a ela na canção, só resta-lhe ir embora.

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